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quarta-feira, 21 de novembro de 2007
Mudando do pato pro ganso, e voltando pro pato...
O cinema entrou na minha vida de forma inusitada, na infância era uma criança que já não vivia sem música mas tinha pouco gosto por filmes, ODIAVA ir ao cinema, tinha medo de escuro e os filmes não me prendiam a atenção, naquela época outras coisas me interessavam mais na sala escura: os Halls pretos, as menininhas e uma poltroninha confortável pra tirar um bom cochilo.
Porém, lá pelos 14 anos comecei a tomar gosto pela coisa. Era de costume da nossa turma de colégio, às sextas-feiras, terminadas as aulas a galera toda ia para o Ribeirão Shopping pegar um cineminha e, entre uma sessão e outra, um namorico e uns beijos roubados aqui e ali me peguei em uma rua sem saída: já estava começando a me amarrar em cinema e aquele caminho não tinha mais volta. Assistia a tudo que vinha pela frente: comédias, romances, ação, suspenses, dramas e muito terror!!!! (meu genêro favorito até hoje). Nutria aversão apenas por aqueles filmes cult, tipo cinema mudo italiano, dramas franceses, e qualquer coisa que fosse um pouco fora do padrão hollywoodiano de se fazer.
Enfim, a idade foi avançando e junto com o amadurecimento musical veio também o cinematográfico, e aqueles filmes que outrora não queria nem perder meu tempo pra saber a história começavam a invadir o videocassete e posteriormente o DVD. Hoje, ironicamente, a situação se inverteu e os cult se inseriram no topo da cadeia cinematográfica, os filmes mudos então nem se fala. E é justamente sobre um destes filmes que irei comentar hoje. Trata-se de uma animação muda do diretor francês Sylvain Chomet (de A Viagem de Chihiro) que juntamente com sua belíssima trilha sonora (onde o assunto volta do ganso pro pato) ocupa um Top 10 de melhores filmes por mim já assistidos. Trata-se de As Bicicletas de Belleville.

As Bicicletas de Belleville (2004)
Título original: Les Triplettes de Belleville
Direção e Roteiro: Sylvain Chomet.
Elenco: Béatrice Bonifassi, Lina Boudreault, Michèle Caucheteux, Jean-Claude Donda, Mari-Lou Gauthier, Charles Linton, Michel Robin, e Monica Viegas.
Montagem: Dominique Brune, Chantal Colibert Brunner e Dominique Lefever.
Trilha Sonora
01. Under the Bridge
02. Belleville Rendez-Vous (French Version)
03. Opening Theme
04. Cabaret Opening
05. Tour de France
o6. Attila Marcel
07. Bruno´s Theme
08. Easy, Bruno, Easy
09. Belleville Rendez-Vous (Demo)
10. French Mafia Theme
11. Jazzy Bach
12. Cabaret Hoover
13. Belleville Jungle
14. Barbier "Cieco Cieco"
15. Pa Pa Pa Palavas
16. The Return of the French Mafia
17. The Shadowing
18. The Chase
19. Belleville Rendez-Vous (English Version)
Era uma tarde preguiçosa em Campinas, na casa de meu irmão Thiago, quando indagamos um ao outro o que poderíamos fazer para passar o tempo, resolvemos procurar se estava passando algo de bom na televisão; por sorte naquela ocasião a operadora de tv a cabo havia liberado todos os canais Telecine (os quais meu irmão não assina nenhum) e navegando por eles deparamo-nos, no Telecine Cult, com uma animação de belos desenhos, cores fortes e uma gostosa trilha sonora, resolvemos deixar no canal, e não nos arrependemos.
Pois bem, o longa de Sylvain Chomet conta a história de Champion, um garoto no alto de seus mais ou menos 10 anos, gordinho e com poucos interesses e alegrias na vida. O garotinho cresce junto à sua avó: Madame Souza, uma velha portuguesa mestre na arte de afinar pianos e outras coisas também, em um bairro no subúrbio de Paris. O interessante de se notar neste filme, além dos desenhos que por si só já são magníficos, são as mensagens passadas através de simples detalhes (já que o filme também praticamente não tem diálogos) como as cores do cenário em cada fase da vida do garoto, assim como do lugar onde estão. Neste início de filme nota-se uma forte tendência ao sépia e cores mais claras, dando a sensação de nostalgia e alegria, acompanhadas de tons de azuis e verdes escuros que invadem a tela quando o bairro em que moram é mostrado.
A velha baixinha Souza, intrigada com a profunda tristeza de seu netinho, tenta alegrá-lo de diversas formas comprando brinquedos e coisas que garotos daquela idade gostariam. Sem sucesso. O garoto mostra-se feliz temporariamente, porém logo esquece os brinquedos e volta ao seu lago de amargura. Até que um belo dia a velhinha o presenteia com um cachorrinho, nomeado Bruno (uma das figuras mais marcantes e belas do filme). O garoto quase pula de alegria e em Bruno o garoto Champion encontra a saída para sua tristeza, mas por algum tempo apenas.
Como todas as outras tentativas de Madame Souza, o cachorro também não consegue cumprir a função de alegrar o triste garotinho. Porém, o tempo passa e Souza arrumando o quarto de seu neto acaba descobrindo sua verdadeira paixão: bicicletas. Debaixo da cama de Champion a velhinha encontra um álbum com vários recortes e fotos de bicicletas, assim como reportagens sobre corridas e notícias antigas sobre o Tour de France. Não tem erro, não demora muito para que Souza presenteie seu netinho com uma magrela. E nela o garoto realmente encontra sua fonte de alegria, passeia para lá e para cá pela casa, sempre acompanhado por sua avó e seguido de perto por Bruno, que já se mostra maior e, principalmente, mais gordo. Missão cumprida. Souza pode finalmente colocar seu netinho para dormir sempre com um sorriso no rosto.
De um garoto gordinho e triste na infância Champion cresce e se torna um rapaz forte e bem preparado fisicamente, principalmente pelo grande apoio de Madame Souza que agora se esforça para ajudar o garoto a realizar mais um sonho, participar de um dos eventos esportivos mais importantes da França: o Tour de France.
Chegada a data do grande evento Champion encontra-se pronto e parte em destino à chegada no Tour de France, porém nem tudo são flores, durante o percurso alguns ciclistas são sequestrados por mafiosos, que querem utilizá-los em corridas clandestinas envolvendo apostas e vinhos. O jovem Champion encontra-se afastado dos primeiros colocados, mas é acompanhado de perto por sua avó que o incentiva em cada curva e subida do trajeto, em uma pequena ambulância. Mais a frente os mafiosos preparam sua armadilha, espalham pregos na pista para furar os pnes da ambulância da velha portuguesa e sequestrar o jovem Champion. E têm sucesso. Após ter os pneus da ambulância furada, Souza acaba perdendo muito tempo e seu neto de vista. Ponto para os mafiosos.
Quando finalmente consegue um jeito de fazer a ambulância andar (o qual não vou contar para não estragar a engraçada surpresa) o jovem Champion já havia desaparecido, encontrando apenas o boné vermelho que utilizava. Bruno, que a estas alturas já esta enorme de tão grande e gordo, é colocado para trabalhar e farejando o rastro de seu jovem dono chega até um navio cargueiro, onde os mafiosos estão embarcando Champion e mais 2 outros ciclistas. Começa então o fio principal do filme: a busca de Souza pelo seu neto.
A sequência que se segue é definida pelo próprio Chomet como a mais dramática do filme, com uma missa de Mozart ao fundo, Souza segue em um pedalinho com o cachorro Bruno, atrás do navio cargueiro, enfrentando um mar bravo e tempestades, até chegar em Belleville, uma cidade que mistura New York com Toronto e Paris (logo na entrada da cidade há uma "Estátua da Liberdade" gorda e que ao invés de segurar uma tocha segura um suculento hamburguer)
Em Belleville, Souza já perdendo as forças encontra-se sozinha debaixo de uma ponte com uma roda torta de bicicleta; aproveitando o som de um navio que passa ao lado aproveita para "afinar" a roda e tocar uma música usando os aros da bicicleta para fazer um som parecido com um xilofone (música esta que abre o cd de trilha sonora), é neste enredo que a velha portuguesa conhece as Trigêmeas de Belleville, três velhinhas que fizeram muito sucesso anos antes, tocando em cabarés e casas noturnas um som ousado, com uma batida sensual, ora jazz, ora mais puxado para o soul, usando os mais variados de instrumentos como um aspirador de pó, uma geladeira e um jornal velho; as velhinhas levadas pela música de Souza entram no ritmo e cantam sua música de sucesso Belleville Rendez-Vous. Encantadas com a heroína portuguesa, decidem levá-la até sua casa e a ajudam na árdua missão de resgatar seu netinho.
Mais tarde na história descobre-se que os ciclistas sequestrados são usados em um esquema de corridas clandestinas, envolvendo muito dinheiro e mafiosos ligados ao comércio de vinho, mas a partir daí não vou mais contar o filme para não estragar as surpresas da história. O filme ainda faz uma crítica aos modelos consumistas franco-americanos e mostra de forma belíssima o enorme amor de Madame Souza, pelo seu neto Champion. O filme peca apenas em não explicar e explorar a fundo o jovem ciclista, após o Tour de France a velha portuguesa torna-se protagonista com as divertidas trigêmeas, mas isto não diminui a grandeza do filme, que pode ser assistido por qualquer idade e promete emocionar dos 8 aos 80 anos.
Sempre achei que para se fazer um bom filme não bastam apenas bons atores, diretor, roteiro, figurino e etc.. Um dos principais fatores para mim é a escolha da trilha sonora, que neste filme foi especialmente produzida e cumpre perfeitamente sua função de dar ritmo à trama. Com regravações da música tema Belleville Rendez-Vous, temas instrumentais e ótimas músicas como Barbier "Cieco Cieco", uma divertida canção no melhor estilo napolitano, a trilha sonora de As Bicicletas de Belleville merece também atenção especial e mostra-se um som de ótima qualidade, para ser ouvido por qualquer idade em qualquer ocasião.
Portanto, se você gosta de boa música e de filmes emocionantes, não deixe de conferir esta magnífica obra de arte que irá te deixar arrepiado, alegre, triste, ansioso e despertar-lhe as mais profundas emoções. Põe no telão e sobe o som!!
Nota 8,5 para o filme e 8,0 para a trilha sonora.
Ciao!





