quarta-feira, 21 de novembro de 2007

Mudando do pato pro ganso, e voltando pro pato...

Bom, como já havia dito anteriormente o papo aqui é música, mas hoje separei um pingo da única inspiração ao longo de 2 semanas pouco produtivas para falar de outra paixão: o cinema.

O cinema entrou na minha vida de forma inusitada, na infância era uma criança que já não vivia sem música mas tinha pouco gosto por filmes, ODIAVA ir ao cinema, tinha medo de escuro e os filmes não me prendiam a atenção, naquela época outras coisas me interessavam mais na sala escura: os Halls pretos, as menininhas e uma poltroninha confortável pra tirar um bom cochilo.

Porém, lá pelos 14 anos comecei a tomar gosto pela coisa. Era de costume da nossa turma de colégio, às sextas-feiras, terminadas as aulas a galera toda ia para o Ribeirão Shopping pegar um cineminha e, entre uma sessão e outra, um namorico e uns beijos roubados aqui e ali me peguei em uma rua sem saída: já estava começando a me amarrar em cinema e aquele caminho não tinha mais volta. Assistia a tudo que vinha pela frente: comédias, romances, ação, suspenses, dramas e muito terror!!!! (meu genêro favorito até hoje). Nutria aversão apenas por aqueles filmes cult, tipo cinema mudo italiano, dramas franceses, e qualquer coisa que fosse um pouco fora do padrão hollywoodiano de se fazer.

Enfim, a idade foi avançando e junto com o amadurecimento musical veio também o cinematográfico, e aqueles filmes que outrora não queria nem perder meu tempo pra saber a história começavam a invadir o videocassete e posteriormente o DVD. Hoje, ironicamente, a situação se inverteu e os cult se inseriram no topo da cadeia cinematográfica, os filmes mudos então nem se fala. E é justamente sobre um destes filmes que irei comentar hoje. Trata-se de uma animação muda do diretor francês Sylvain Chomet (de A Viagem de Chihiro) que juntamente com sua belíssima trilha sonora (onde o assunto volta do ganso pro pato) ocupa um Top 10 de melhores filmes por mim já assistidos. Trata-se de As Bicicletas de Belleville.




As Bicicletas de Belleville (2004)

Título original: Les Triplettes de Belleville

Direção e Roteiro: Sylvain Chomet.

Elenco: Béatrice Bonifassi, Lina Boudreault, Michèle Caucheteux, Jean-Claude Donda, Mari-Lou Gauthier, Charles Linton, Michel Robin, e Monica Viegas.

Montagem: Dominique Brune, Chantal Colibert Brunner e Dominique Lefever.

Trilha Sonora

01. Under the Bridge

02. Belleville Rendez-Vous (French Version)

03. Opening Theme

04. Cabaret Opening

05. Tour de France

o6. Attila Marcel

07. Bruno´s Theme

08. Easy, Bruno, Easy

09. Belleville Rendez-Vous (Demo)

10. French Mafia Theme

11. Jazzy Bach

12. Cabaret Hoover

13. Belleville Jungle

14. Barbier "Cieco Cieco"

15. Pa Pa Pa Palavas

16. The Return of the French Mafia

17. The Shadowing

18. The Chase

19. Belleville Rendez-Vous (English Version)

Era uma tarde preguiçosa em Campinas, na casa de meu irmão Thiago, quando indagamos um ao outro o que poderíamos fazer para passar o tempo, resolvemos procurar se estava passando algo de bom na televisão; por sorte naquela ocasião a operadora de tv a cabo havia liberado todos os canais Telecine (os quais meu irmão não assina nenhum) e navegando por eles deparamo-nos, no Telecine Cult, com uma animação de belos desenhos, cores fortes e uma gostosa trilha sonora, resolvemos deixar no canal, e não nos arrependemos.

Pois bem, o longa de Sylvain Chomet conta a história de Champion, um garoto no alto de seus mais ou menos 10 anos, gordinho e com poucos interesses e alegrias na vida. O garotinho cresce junto à sua avó: Madame Souza, uma velha portuguesa mestre na arte de afinar pianos e outras coisas também, em um bairro no subúrbio de Paris. O interessante de se notar neste filme, além dos desenhos que por si só já são magníficos, são as mensagens passadas através de simples detalhes (já que o filme também praticamente não tem diálogos) como as cores do cenário em cada fase da vida do garoto, assim como do lugar onde estão. Neste início de filme nota-se uma forte tendência ao sépia e cores mais claras, dando a sensação de nostalgia e alegria, acompanhadas de tons de azuis e verdes escuros que invadem a tela quando o bairro em que moram é mostrado.

A velha baixinha Souza, intrigada com a profunda tristeza de seu netinho, tenta alegrá-lo de diversas formas comprando brinquedos e coisas que garotos daquela idade gostariam. Sem sucesso. O garoto mostra-se feliz temporariamente, porém logo esquece os brinquedos e volta ao seu lago de amargura. Até que um belo dia a velhinha o presenteia com um cachorrinho, nomeado Bruno (uma das figuras mais marcantes e belas do filme). O garoto quase pula de alegria e em Bruno o garoto Champion encontra a saída para sua tristeza, mas por algum tempo apenas.

Como todas as outras tentativas de Madame Souza, o cachorro também não consegue cumprir a função de alegrar o triste garotinho. Porém, o tempo passa e Souza arrumando o quarto de seu neto acaba descobrindo sua verdadeira paixão: bicicletas. Debaixo da cama de Champion a velhinha encontra um álbum com vários recortes e fotos de bicicletas, assim como reportagens sobre corridas e notícias antigas sobre o Tour de France. Não tem erro, não demora muito para que Souza presenteie seu netinho com uma magrela. E nela o garoto realmente encontra sua fonte de alegria, passeia para lá e para cá pela casa, sempre acompanhado por sua avó e seguido de perto por Bruno, que já se mostra maior e, principalmente, mais gordo. Missão cumprida. Souza pode finalmente colocar seu netinho para dormir sempre com um sorriso no rosto.

De um garoto gordinho e triste na infância Champion cresce e se torna um rapaz forte e bem preparado fisicamente, principalmente pelo grande apoio de Madame Souza que agora se esforça para ajudar o garoto a realizar mais um sonho, participar de um dos eventos esportivos mais importantes da França: o Tour de France.

Chegada a data do grande evento Champion encontra-se pronto e parte em destino à chegada no Tour de France, porém nem tudo são flores, durante o percurso alguns ciclistas são sequestrados por mafiosos, que querem utilizá-los em corridas clandestinas envolvendo apostas e vinhos. O jovem Champion encontra-se afastado dos primeiros colocados, mas é acompanhado de perto por sua avó que o incentiva em cada curva e subida do trajeto, em uma pequena ambulância. Mais a frente os mafiosos preparam sua armadilha, espalham pregos na pista para furar os pnes da ambulância da velha portuguesa e sequestrar o jovem Champion. E têm sucesso. Após ter os pneus da ambulância furada, Souza acaba perdendo muito tempo e seu neto de vista. Ponto para os mafiosos.

Quando finalmente consegue um jeito de fazer a ambulância andar (o qual não vou contar para não estragar a engraçada surpresa) o jovem Champion já havia desaparecido, encontrando apenas o boné vermelho que utilizava. Bruno, que a estas alturas já esta enorme de tão grande e gordo, é colocado para trabalhar e farejando o rastro de seu jovem dono chega até um navio cargueiro, onde os mafiosos estão embarcando Champion e mais 2 outros ciclistas. Começa então o fio principal do filme: a busca de Souza pelo seu neto.

A sequência que se segue é definida pelo próprio Chomet como a mais dramática do filme, com uma missa de Mozart ao fundo, Souza segue em um pedalinho com o cachorro Bruno, atrás do navio cargueiro, enfrentando um mar bravo e tempestades, até chegar em Belleville, uma cidade que mistura New York com Toronto e Paris (logo na entrada da cidade há uma "Estátua da Liberdade" gorda e que ao invés de segurar uma tocha segura um suculento hamburguer)

Em Belleville, Souza já perdendo as forças encontra-se sozinha debaixo de uma ponte com uma roda torta de bicicleta; aproveitando o som de um navio que passa ao lado aproveita para "afinar" a roda e tocar uma música usando os aros da bicicleta para fazer um som parecido com um xilofone (música esta que abre o cd de trilha sonora), é neste enredo que a velha portuguesa conhece as Trigêmeas de Belleville, três velhinhas que fizeram muito sucesso anos antes, tocando em cabarés e casas noturnas um som ousado, com uma batida sensual, ora jazz, ora mais puxado para o soul, usando os mais variados de instrumentos como um aspirador de pó, uma geladeira e um jornal velho; as velhinhas levadas pela música de Souza entram no ritmo e cantam sua música de sucesso Belleville Rendez-Vous. Encantadas com a heroína portuguesa, decidem levá-la até sua casa e a ajudam na árdua missão de resgatar seu netinho.

Mais tarde na história descobre-se que os ciclistas sequestrados são usados em um esquema de corridas clandestinas, envolvendo muito dinheiro e mafiosos ligados ao comércio de vinho, mas a partir daí não vou mais contar o filme para não estragar as surpresas da história. O filme ainda faz uma crítica aos modelos consumistas franco-americanos e mostra de forma belíssima o enorme amor de Madame Souza, pelo seu neto Champion. O filme peca apenas em não explicar e explorar a fundo o jovem ciclista, após o Tour de France a velha portuguesa torna-se protagonista com as divertidas trigêmeas, mas isto não diminui a grandeza do filme, que pode ser assistido por qualquer idade e promete emocionar dos 8 aos 80 anos.

Sempre achei que para se fazer um bom filme não bastam apenas bons atores, diretor, roteiro, figurino e etc.. Um dos principais fatores para mim é a escolha da trilha sonora, que neste filme foi especialmente produzida e cumpre perfeitamente sua função de dar ritmo à trama. Com regravações da música tema Belleville Rendez-Vous, temas instrumentais e ótimas músicas como Barbier "Cieco Cieco", uma divertida canção no melhor estilo napolitano, a trilha sonora de As Bicicletas de Belleville merece também atenção especial e mostra-se um som de ótima qualidade, para ser ouvido por qualquer idade em qualquer ocasião.

Portanto, se você gosta de boa música e de filmes emocionantes, não deixe de conferir esta magnífica obra de arte que irá te deixar arrepiado, alegre, triste, ansioso e despertar-lhe as mais profundas emoções. Põe no telão e sobe o som!!

Nota 8,5 para o filme e 8,0 para a trilha sonora.

Ciao!

domingo, 4 de novembro de 2007

Mariana, The Killers e Indie Rock (Da série 10 sons que mais marcaram nos últimos tempos)

Mariana.

Lembro-me de meu primeiro dia na faculdade de Direito, um grande misto de sensações se criavam dentro de meu ser, afinal de contas, apesar de ter feito 6 meses de outra faculdade, ainda não tinha transitado completamente da fase adolescente-criança / ribeirão-são paulo, para a fase adulta, de novas responsabilidades e desafios. Os sentimentos mais marcantes eram a confusão e a curiosidade, encontrava-me extasiado com aquele novo mundo de pessoas, culturas, tribos, sons e imagens que se deparava diante de meus sentidos. As bandas mais tocadas na playlist eram: Coldplay que descobrira e começara a gostar há pouco, Dream Theater, que ao longo do tempo vocês irão perceber que é uma constante, Supergrass, Bush e Pink Floyd.

Logo ao entrar na sala de aula, quase 1 mês depois do início oficial das atividades acadêmicas, me deparei com Mariana, uma bela morena, de cabelos lisos na cor do ônix, com traços delicados e ao mesmo tempo marcantes, lábios de açaí e olhos negros. O coração logo palpitou, queria me levantar, sentar-me ao lado dela e puxar qualquer assunto para que pudesse me aproximar, ficou no 0 a 0 por algum tempo. Mas não demorou muito pra que começasse a me entrosar com alguns grupos que já haviam se formado na sala de aula e trocar as primeiras palavras com ela, começávamos a dar os primeiros de uma forte amizade, passando por uma paixão intensa (e secreta) e hoje para uma amizade mais distante, mas ainda assim muito importante.

Mariana era uma das minhas melhores amigas, uma pessoa com quem sabia que podia contar pra qualquer coisa a qualquer hora, ainda mais se fosse para ouvir ou discutir uma boa música, já que ela tem um excelente gosto musical; o tempo foi passando, nossa amizade foi se intensificando e eu fui me apaixonando, secretamente, por ela. Deixando de lado as paixões antigas ,o que importa de fato é que naquela época (final de 2004/começo de 2005) o mundo da música vinha sendo invadido em uma velocidade incrível por um estilo musical cru, surgidos principalmente nos bares escuros de Londres, com uma composição simples, mas impressionantemente marcante e potente, que relembravam os dias de ouro do The Clash, Beatles, Ramones, Frank Zappa, Smiths, além das bandas mais novas que surgiam nos anos 90 como Oasis, Blur, Placebo, Moloko e The Strokes; era o indie rock, livre das gravadoras e dos rótulos pré-definidos, que vinha falando o que bem entendia e como entendia, apoiado por uma legião crescente de fãs remanescentes das bandas que tinham peito para fazer o som à sua própria maneira em décadas anteriores.

Foi neste contexto que um dia a Mari me recomendou este CD, que me chamou a atenção para esta nova tendência que estava se instalando e me jogou de cabeça no estilo:

The Killers - Hot Fuss (2004)

01. Jenny Was a Friend of Mine
02. Mr. Brightside
03. Smile Like You Mean It
04. Somebody Told Me
05. All These Things That I´ve Done
06. Andy You´re a Star
07. On Top
08. Glamorous Indie Rock and Roll
09. Believe me Natalie
10. Midnight Show
11. Everything Will Be Alright





O The Killers se formou da união de 4 jovens de Las Vegas: Brandon Flowers, que conduz os vocais, teclados e sintetizadores; David Keuning, nas guitarras; Ronnie Vanucci, na bateria; e Mark Stoermer no baixo. Em 2004 lançam seu primeiro CD pela Island Records, selo que lançou também o Keane, e logo na estréia já sentiram o gosto do sucesso, com música de ótima qualidade, cheia de disposição e influências marcantes como The Cure, Joy Division, Depeche Mode, Oasis, Blur e The Smiths. Resultado? 1.5 milhões de cópias vendidas.

E não era para menos, confesso que da primeira vez que ouvi o Hot Fuss não "engoli" tão facilmente e achei um som simplesmente mediano, porém conforme fui ouvindo o CD percebi que este quarteto tinha muito a oferecer, com músicas extraordinárias e muito bem criadas do começo ao fim.

A faixa que abre o disco, intitulada Jenny Was a Friend of Mine já dá logo nos primeiros segundos uma noção do que se pode esperar, barulhos de helicóptero e forte presença dos sintetizadores são logo preenchidos com um riff ritmado e forte na guitarra e uma linha de baixo magnífica; não demora muito também pra que Flowers demonstre seu potencial nos vocais e teclados, alterando seu timbre em altos e baixos que vão do suave ao explosivo em doses cuidadosamente administradas. A bateria também não fica atrás e Vanucci consegue através de uma pegada simples, porém muito consistente, manter o ritmo agitado e dançante da música, que consiste na insistência de um cara em dizer que não matou sua própria amiga, não havendo motivos para tal crime. O ritmo mantém-se eletrizante até o final quando termina com um ótimo solo de teclado.

Mal dá o tempo para respirar e já entra Mr. Brightside com uma pegada ainda mais animada do que a da faixa de abertura, com uma letra marcante sobre um amor que começou bem e de repente se transformou em uma verdadeira doença, após a partida da pessoa amada ("It started out with a kiss/How did it end up like this? It was only a kiss, it was only a kiss/ Now I´m falling asleep/And she´s calling a cab/While he is having a smoke/And she´s taking a drag). Impossível manter-se estático diante de um gostoso riff de guitarra abrindo a música, logo acompanhado por um ótimo chimbau duplo na bateria e os sintetizadores em peso dando o ritmo dançante da música, ainda mais empolgado no refrão, que mostra mais força e esperança do protagonista, representados brilhantemente em uma voz suave e potente de Flowers ao longo de toda a música. Não é a toa que este single foi um dos maiores sucessos do grupo de Las Vegas.

Smile Like You Mean It vem para dar uma quebrada (de leve) no ritmo agitado do disco até então e tocar mais a fundo a sentimentalidade, com uma guitarra mais distorcida, acompanhado do baixo de Stoermer levemente destacado e um vocal mais calmo de Flowers a música te leva a uma viagem saudosista, relembrando os tempos de infância e de amadurecimento de um garoto que começa a entrar na fase adulta e descobrir o quanto ainda tem a aprender sobre a vida. Mesmo com um tom melancólico o grupo não deixa o ouvinte desanimar, mantendo um ritmo bem consistente sempre garantido com o talento de Vanucci na bateria e uma ótima influência dos sintetizadores que conseguem harmonizar bem a música toda.

Somebody Told Me foi o primeiro grande hit do disco de estréia do The Killers, retomando a pegada mais agitada através de uma batida mais forte na guitarra, muitos efeitos eletrônicos e ótimos arranjos na bateria, a quarta faixa do disco mostra-se empolgante do início ao fim, com o baixo destacado em algumas partes, como partes do refrão, e os teclados e vocais de Flowers preenchendo magnificamente o conjunto todo.

Mas é a partir de All These Things That I´ve Done que o álbum toma seu melhor rumo, explorando bem todos os instrumentos e mostrando um lado menos comercial e "manjado" do que as anteriores (não que estas sejam ruins, são ótimas; mas as que estão por vir demonstram depois de algum tempo o porque os caras vieram). A quinta faixa começa com um teclado bem atmosférico e o vocal quase sussurrado cantando a esperança e a força de vontade de alguém que está prestes a mudar de vida após olhar para trás e remontar suas vivências, que logo é acompanhado por um ritmo suave na guitarra e bateria. ("I wanna stand up/I wanna let go.../I wanna shine on in the hearts of men/I wanna a meaning from the back of my broken hand/Another headache/Another heart break/I´m so much older than I can take"). O refrão é bem marcante e a música chega ao seu clímax pouco depois da metade, onde os instrumentos dão lugar a uma guitarra abafada e solitária seguida das palavras de Flowers "I got soul, but i´m not a soldier", repetida algumas vezes enquanto os instrumentos voltam a aparecer em uma elevação bem sutil que chega a causar arrepios. Uma das melhores músicas do disco, sem sombra de dúvidas.

Andy You´re a Star era a música preferida da Mari neste CD, talvez a mais obscura e melancólica, juntamente com Everything Will Be Alright, com uma distorção bem cru, um efeito quase que sujo no sintetizador e uma levada bem leve no baixo e bateria, a música passa uma mensagem de ajuda a Andy, que parece desesperado com um amor impossível. Mais uma vez os vocais fazem a diferença e o tom melancólico de Flowers conduz toda a música com uma sentimentalidade incrível em um estilo que me lembrou muito o The Cure na época do Seventeen Seconds.

A sétima faixa do disco intitulada On Top foi durante muito tempo a minha favorita. Começando com um ótimo efeito no sintetizador e uma levada bem marcada no chimbau a música já te leva logo nos primeiros segundos a pelo menos balançar os pés. Guitarra e baixo entram em perfeita sintonia com períodos lentos seguidos por tomadas mais agitadas, acompanhadas de vocais impecáveis e um refrão magnífico. Após o refrão há uma mudança no tempo da música com uma distorção mais limpa na guitarra, arranjos magníficos na bateria e os sintetizadores marcando a volta ao ritmo principal, desta vez carregado nos efeitos eletrônicos e na batida mais consistente da bateria até seu desfecho.

Ainda seguindo o embalo vem Glamorous Indie Rock and Roll, a música de mais difícil aceitação por mim nos primórdios e que hoje considero uma das melhores do disco. A música é um hino de glória ao indie rock e sua filosofia, com uma introdução bem limpa e simples na guitarra a música logo vai tomando a forma de um grito de liberdade, no melhor estilo carpe diem, toados potentemente por Flowers em uma letra simples, porém marcante, sobre a predominante importância da música indie em sua vida. ("Glamorous Indie Rock and Roll is what I want/ It´s in my soul is what I need/ Indie Rock and Roll it´s time.") Mesmo com toda a simplicidade da música, Glamorous Indie Rock and Roll é entoada dos confins da alma de todos os integrantes da banda, com destaque para os baixos bem marcados e pelos ótimos vocais, tornando-se uma faixa obrigatória deste CD.

Quebrando mais uma vez o ritmo agitado entra Believe Me Natalie com um arranjo simples de Vanucci na bateria, acompanhado de um efeito bem suave no sintetizador e uma guitarra quase inebriante somado a uma linda letra que é quase uma súplica de amor. Os sintetizadores e teclado se destacam em quase toda a música e Brandon Flowers prova do início ao fim que é um excelente cantor, conseguindo conduzir bem as emoções através do timbre e intensidade de sua voz. Uma excelente música para respirar e se preparar para a pancada que espera à seguir.

Se você achou que na penúltima faixa o álbum iria esfriar enganou-se totalmente, Midnight Show retoma o ritmo agitado e animado que predomina em Hot Fuss, com a guitarra num estilo que lembrou bastante o Franz Ferdinand e arranjos sensacionais na bateria a música flui pelos ouvidos passando pelo corpo todo e a vontade de dançar é quase incotrolável. Com uma construção bem definida de começo-meio-fim Midnight Show alterna ritmos suaves que vão aumentando de intensidade conforme se aproximam do refrão. A música atinge o clímax na quebra do tempo após o 2º refrão ("And crashing tide can't hide a guilty girl/With jealous hearts that start with gloss and curls/I took my baby's breath beneath the chandelier/Of stars and atmospheres/And watched her disappear/Into the midnight show.") quando as distorções e sintetizadores dão espaço a uma guitarra ritmada e os arranjos de Vanucci na bateria, que vão "explodindo" conforme a música retorna para o desfecho com um banho do fortíssimo vocal de Flowers, mantendo o ritmo frenético até o término da música, simplesmente de tirar o fôlego!

Finalmente em Everything Will Be Alright o quarteto de Las Vegas parece ter conseguido passar seu recado, viajando de sons empolgados e dançantes, para baladinhas mais calmas e até pra melancolia, terminam esta grande obra com mais uma música obscura, marcada pelos sintentizadores que se estendem por toda a música e marcam bem a mensagem que os caras parecem tentar passar, a de que todos passamos por situações e momentos difíceis em nossas vidas, mas que no fim das contas tudo irá terminar bem. Os vocais e teclados de Brandon Flowers mostram-se mais uma vez magníficos, fechando o CD em grande estilo e colocando o The Killers em destaque no cenário indie, principalmente por fugir da "mesmice" com muita originalidade e energia, um som indispensável!

Nota: 9,0

Sobe o som!!!!!

ps: ia escrever sobre o show deles no Tim Festival 2007, mas como o post ficou muito grande fica para um outro separado.

ps2: Mari, parabéns pelo seu aniversário! Você vai sempre morar em meu coração por ser esta pessoa maravilhosa! Um grande beijo!

O começo do fim, ou só da continuição?

Pra começar, o tema aqui é música. Quem surgiu primeiro, o ovo ou a música?

É impossível se dar um conceito exato sobre o que é a música, de onde ela veio e como ela surgiu. Alguns teóricos acreditam que a música exista por si só, bastando a percepção do ouvinte (o barulho do mar realmente parece música pros meus ouvidos :D), mas a grande maioria afirma que a música só faz sentido se for para ser executada, percebida e interpretada, obedecendo para isto um critério de composição que obedece ritmo, melodia e harmonia, e de onde ainda variam altura, intensidade, timbre e duração, que com sua forma de criação e execução são capazes de levar o ser humano a sensações e lugares inimagináveis. Alegria, tristeza, saudade, profundo deleite, vontade de dançar. É deste tipo de música que iremos falar, e obviamente, procuraremos discutir músicas de no máximo 200 anos de idade (e olhe lá!). Enfim...

Falando de música, sempre fui apaixonado por ela. Talvez seja porque todos os dias da minha infância no interior, quando chegava do colégio, por volta das 18:00, a primeira coisa que fazia era deixar as coisas no quarto, tirar a roupa e correr para a piscina no andar de baixo do sobrado onde minha família ainda mora, dar um tchibum e passar um tempo com meu tio avô. José Mikawa - o tio Zé, que dividia com a piscina o quartinho de bugigangas e tranqueiras em geral, um quarto com mais algumas velharias, e, principalmente seus discos de vinil (que hoje foram apropriados por mim :D), além do quarto onde ele dormia. Naqueles tempos eu escutava o que vinha pela frente, mas sem muito critério: Shakira, Cravo e Canela, Leandro e Leonardo (que ouvia todos os dias pegando carona pro colégio com a minha prima linda), Spice Girls, e o que mais estava em evidência na rádio, e muita música clássica, porque eu e o Tio Zé ficávamos até a hora do jantar fazendo palavras cruzadas e ouvindo, Mozart, Beethoven Chopin, Wagner, Liszt e Schubert, que era um dos preferidos dele e meu também, entre outros grandes gênios da música clássica.

Perto da hora do jantar subia para o piso de cima da casa, onde ficam os outros quartos todos e ia fazer minhas coisas, fingia que fazia a tarefa do dia, brigava com o irmão para poder usar 30 segundos do computador, brigava com a mãe por umas 3 horas tentando convencê-la a me deixar ficar mais um dia sem banho e ia jantar com a família toda reunida: mãe, padrasto, irmão e o tio Zé. Jantávamos e conversávamos sobre as coisas da vida: o dia seguinte, o dia anterior, os fatos inusitados do dia, angústias, alegrias, tristezas e os planos. Até que enfim cada um "tomava seu rumo", a mãe e o padrasto iam para o quarto assistir a novela, as duas crianças iam dormir e meu tio avô descia para o quarto dele, ligava o som do quarto e passava horas e horas a ouvir: Perla, Tania Libertad, Mercedes Sosa, Clara Nunes, Cartola, Caetano Veloso, Chico Buarque, Noel Rosa, Mutantes, Nat King Cole, George Benson, Kitaro e às vezes até um Supertramp.

A estas horas todas as outras pessoas da família já tinham dormido ou então estavam ocupadas com outras coisas que não o som que fluia do andar de baixo da casa; porém eu, como coruja que sou ainda hoje, passava as últimas horas do dia ouvindo e me deleitando ao som do velho, que apesar de ainda nem conhecer já me levava até onde minha cabeça quisesse ir até cair definitivamente no sono, colocando mais fogo ainda na paixão que começava aí a criar força. Não demorou para que, na primeira oportunidade, eu lhe pedisse um walkman de presente.

Ele, que já sabia do meu gosto pela música desde cedo não hesitou em me presentear, e assim começou a história de amor.

Então chegou a adolescência e os interesses começaram a mudar: o corpo já dava os primeiros sinais de amadurecimento, os amigos mudaram, começamos a freqüentar as primeiras baladinhas e matinês dominicais, já começávamos a criar nossas ideologias, influenciadas principalmente pela explosão das bandas de rock dos anos 90, com músicas sobre a liberdade de expressão e sentimento, todo aquele lance decurtir a vida e não se arrepender; conseqüente os gostos mudaram e foram sendo moldados. Já selecionava melhor o que ouvia, mas ainda não tinha aberto completamente a cabeça para o vasto mundo musical ao redor. Naquela época ouvia muito Raimundos, Charlie Brown Jr., Green Day, Nirvana, Pearl Jam, Alice in Chains, Faith no More e Silverchair, e ainda era bem influenciado por meu pai com pitadas de Depeche Mode, Tears For Fears, Right Said Fred, Duran Duran, Erasure, Donna Summer, Gypsy Kings e Stone Temple Pilots, responsável pela grande revolução musical na minha vida, abrindo completamente os meus olhos e a minha cabeça pra outros genêros e estilos musicais que até então nem pensava em explorar, e me mergulhou de vez no roquenrou. Mas isto é tema de alguns posts pra frente.

Com os olhos abertos ao rock, não demorou muito para o metal entrar na jogada também, foram ótimos anos de Angra, Avantasia, Edguy, Gammaray, Hammerfal, Stratovarius, Sepultura e muito Dream Theater, Megadeth e headbang, sempre acompanhado de meus grandes amigos que são metaleiros de carteirinha até hoje e grandes apreciadores de boa música também. E então vim pra São Paulo pouco antes de fazer 18 anos e no jargão popular "o que veio foi lucro", passando do metal e rock de garagem para o mpb, samba, jazz, reggae, indie, pop, country, blues, eletrônico e tudo mais que habita minhas playlists atuais.

É então que você, querido leitor, se pergunta porque deveria gastar seu precioso tempo lendo o que um bando de music freaks (quase) desocupados, tem a dizer sobre esta magnifíca forma de arte, que ajuda a dar sentido à vida e torná-la muito mais prazeirosa? Simples! Um sonzinho cai bem em qualquer ocasião, em um jantar, uma conversa com amigos, para relaxar, no banho, em uma viagem ou uma festa. E como apreciadores (nada) preconceituosos buscaremos analisar os mais diversos estilos, bandas e cd´s de forma construtiva, sempre respeitando o trabalho do artista e ressaltando os pontos positivos da obra, proporcionando assim um melhor descobrimente e apreciação musical. Portanto se o que você procura é conhecer melhor uma banda que ouviu por ai mas não sabe muito a respeito, um pouco de diversão com algumas histórias no mínimo inusitadas ou simplesmente uma leitura despretenciosa enquanto está no banheiro, este é o lugar! Aumente o volume e fique à vontade!

E pra começar a falar objetivamente de música, como não tinha pensado em nada para começar, resolvi aproveitar o ensejo do Tim Festival (que foi ducaraleo) e ainda uma idéia de começar com um Top 10 das bandas que mais abalaram meu gosto musical nos últimos tempos, pra falar de uma banda norte-americana, que estourou junto com o boom do indie rock, em 2004, e me lançou de cabeça no estilo. Começando com The Killers a banda nº 10 da lista.

Críticas e sugestões são bem vindas, comente, elogie, xingue, participe.

Obrigado pela visita e famo que famo féééi!