Lembro-me de meu primeiro dia na faculdade de Direito, um grande misto de sensações se criavam dentro de meu ser, afinal de contas, apesar de ter feito 6 meses de outra faculdade, ainda não tinha transitado completamente da fase adolescente-criança / ribeirão-são paulo, para a fase adulta, de novas responsabilidades e desafios. Os sentimentos mais marcantes eram a confusão e a curiosidade, encontrava-me extasiado com aquele novo mundo de pessoas, culturas, tribos, sons e imagens que se deparava diante de meus sentidos. As bandas mais tocadas na playlist eram: Coldplay que descobrira e começara a gostar há pouco, Dream Theater, que ao longo do tempo vocês irão perceber que é uma constante, Supergrass, Bush e Pink Floyd.
Logo ao entrar na sala de aula, quase 1 mês depois do início oficial das atividades acadêmicas, me deparei com Mariana, uma bela morena, de cabelos lisos na cor do ônix, com traços delicados e ao mesmo tempo marcantes, lábios de açaí e olhos negros. O coração logo palpitou, queria me levantar, sentar-me ao lado dela e puxar qualquer assunto para que pudesse me aproximar, ficou no 0 a 0 por algum tempo. Mas não demorou muito pra que começasse a me entrosar com alguns grupos que já haviam se formado na sala de aula e trocar as primeiras palavras com ela, começávamos a dar os primeiros de uma forte amizade, passando por uma paixão intensa (e secreta) e hoje para uma amizade mais distante, mas ainda assim muito importante.
Mariana era uma das minhas melhores amigas, uma pessoa com quem sabia que podia contar pra qualquer coisa a qualquer hora, ainda mais se fosse para ouvir ou discutir uma boa música, já que ela tem um excelente gosto musical; o tempo foi passando, nossa amizade foi se intensificando e eu fui me apaixonando, secretamente, por ela. Deixando de lado as paixões antigas ,o que importa de fato é que naquela época (final de 2004/começo de 2005) o mundo da música vinha sendo invadido em uma velocidade incrível por um estilo musical cru, surgidos principalmente nos bares escuros de Londres, com uma composição simples, mas impressionantemente marcante e potente, que relembravam os dias de ouro do The Clash, Beatles, Ramones, Frank Zappa, Smiths, além das bandas mais novas que surgiam nos anos 90 como Oasis, Blur, Placebo, Moloko e The Strokes; era o indie rock, livre das gravadoras e dos rótulos pré-definidos, que vinha falando o que bem entendia e como entendia, apoiado por uma legião crescente de fãs remanescentes das bandas que tinham peito para fazer o som à sua própria maneira em décadas anteriores.
Foi neste contexto que um dia a Mari me recomendou este CD, que me chamou a atenção para esta nova tendência que estava se instalando e me jogou de cabeça no estilo:
The Killers - Hot Fuss (2004)01. Jenny Was a Friend of Mine
02. Mr. Brightside
03. Smile Like You Mean It
04. Somebody Told Me
05. All These Things That I´ve Done
06. Andy You´re a Star
07. On Top
08. Glamorous Indie Rock and Roll
09. Believe me Natalie
10. Midnight Show
11. Everything Will Be Alright
O The Killers se formou da união de 4 jovens de Las Vegas: Brandon Flowers, que conduz os vocais, teclados e sintetizadores; David Keuning, nas guitarras; Ronnie Vanucci, na bateria; e Mark Stoermer no baixo. Em 2004 lançam seu primeiro CD pela Island Records, selo que lançou também o Keane, e logo na estréia já sentiram o gosto do sucesso, com música de ótima qualidade, cheia de disposição e influências marcantes como The Cure, Joy Division, Depeche Mode, Oasis, Blur e The Smiths. Resultado? 1.5 milhões de cópias vendidas.
E não era para menos, confesso que da primeira vez que ouvi o Hot Fuss não "engoli" tão facilmente e achei um som simplesmente mediano, porém conforme fui ouvindo o CD percebi que este quarteto tinha muito a oferecer, com músicas extraordinárias e muito bem criadas do começo ao fim.
A faixa que abre o disco, intitulada Jenny Was a Friend of Mine já dá logo nos primeiros segundos uma noção do que se pode esperar, barulhos de helicóptero e forte presença dos sintetizadores são logo preenchidos com um riff ritmado e forte na guitarra e uma linha de baixo magnífica; não demora muito também pra que Flowers demonstre seu potencial nos vocais e teclados, alterando seu timbre em altos e baixos que vão do suave ao explosivo em doses cuidadosamente administradas. A bateria também não fica atrás e Vanucci consegue através de uma pegada simples, porém muito consistente, manter o ritmo agitado e dançante da música, que consiste na insistência de um cara em dizer que não matou sua própria amiga, não havendo motivos para tal crime. O ritmo mantém-se eletrizante até o final quando termina com um ótimo solo de teclado.
Mal dá o tempo para respirar e já entra Mr. Brightside com uma pegada ainda mais animada do que a da faixa de abertura, com uma letra marcante sobre um amor que começou bem e de repente se transformou em uma verdadeira doença, após a partida da pessoa amada ("It started out with a kiss/How did it end up like this? It was only a kiss, it was only a kiss/ Now I´m falling asleep/And she´s calling a cab/While he is having a smoke/And she´s taking a drag). Impossível manter-se estático diante de um gostoso riff de guitarra abrindo a música, logo acompanhado por um ótimo chimbau duplo na bateria e os sintetizadores em peso dando o ritmo dançante da música, ainda mais empolgado no refrão, que mostra mais força e esperança do protagonista, representados brilhantemente em uma voz suave e potente de Flowers ao longo de toda a música. Não é a toa que este single foi um dos maiores sucessos do grupo de Las Vegas.
Smile Like You Mean It vem para dar uma quebrada (de leve) no ritmo agitado do disco até então e tocar mais a fundo a sentimentalidade, com uma guitarra mais distorcida, acompanhado do baixo de Stoermer levemente destacado e um vocal mais calmo de Flowers a música te leva a uma viagem saudosista, relembrando os tempos de infância e de amadurecimento de um garoto que começa a entrar na fase adulta e descobrir o quanto ainda tem a aprender sobre a vida. Mesmo com um tom melancólico o grupo não deixa o ouvinte desanimar, mantendo um ritmo bem consistente sempre garantido com o talento de Vanucci na bateria e uma ótima influência dos sintetizadores que conseguem harmonizar bem a música toda.
Somebody Told Me foi o primeiro grande hit do disco de estréia do The Killers, retomando a pegada mais agitada através de uma batida mais forte na guitarra, muitos efeitos eletrônicos e ótimos arranjos na bateria, a quarta faixa do disco mostra-se empolgante do início ao fim, com o baixo destacado em algumas partes, como partes do refrão, e os teclados e vocais de Flowers preenchendo magnificamente o conjunto todo.
Mas é a partir de All These Things That I´ve Done que o álbum toma seu melhor rumo, explorando bem todos os instrumentos e mostrando um lado menos comercial e "manjado" do que as anteriores (não que estas sejam ruins, são ótimas; mas as que estão por vir demonstram depois de algum tempo o porque os caras vieram). A quinta faixa começa com um teclado bem atmosférico e o vocal quase sussurrado cantando a esperança e a força de vontade de alguém que está prestes a mudar de vida após olhar para trás e remontar suas vivências, que logo é acompanhado por um ritmo suave na guitarra e bateria. ("I wanna stand up/I wanna let go.../I wanna shine on in the hearts of men/I wanna a meaning from the back of my broken hand/Another headache/Another heart break/I´m so much older than I can take"). O refrão é bem marcante e a música chega ao seu clímax pouco depois da metade, onde os instrumentos dão lugar a uma guitarra abafada e solitária seguida das palavras de Flowers "I got soul, but i´m not a soldier", repetida algumas vezes enquanto os instrumentos voltam a aparecer em uma elevação bem sutil que chega a causar arrepios. Uma das melhores músicas do disco, sem sombra de dúvidas.
Andy You´re a Star era a música preferida da Mari neste CD, talvez a mais obscura e melancólica, juntamente com Everything Will Be Alright, com uma distorção bem cru, um efeito quase que sujo no sintetizador e uma levada bem leve no baixo e bateria, a música passa uma mensagem de ajuda a Andy, que parece desesperado com um amor impossível. Mais uma vez os vocais fazem a diferença e o tom melancólico de Flowers conduz toda a música com uma sentimentalidade incrível em um estilo que me lembrou muito o The Cure na época do Seventeen Seconds.
A sétima faixa do disco intitulada On Top foi durante muito tempo a minha favorita. Começando com um ótimo efeito no sintetizador e uma levada bem marcada no chimbau a música já te leva logo nos primeiros segundos a pelo menos balançar os pés. Guitarra e baixo entram em perfeita sintonia com períodos lentos seguidos por tomadas mais agitadas, acompanhadas de vocais impecáveis e um refrão magnífico. Após o refrão há uma mudança no tempo da música com uma distorção mais limpa na guitarra, arranjos magníficos na bateria e os sintetizadores marcando a volta ao ritmo principal, desta vez carregado nos efeitos eletrônicos e na batida mais consistente da bateria até seu desfecho.
Ainda seguindo o embalo vem Glamorous Indie Rock and Roll, a música de mais difícil aceitação por mim nos primórdios e que hoje considero uma das melhores do disco. A música é um hino de glória ao indie rock e sua filosofia, com uma introdução bem limpa e simples na guitarra a música logo vai tomando a forma de um grito de liberdade, no melhor estilo carpe diem, toados potentemente por Flowers em uma letra simples, porém marcante, sobre a predominante importância da música indie em sua vida. ("Glamorous Indie Rock and Roll is what I want/ It´s in my soul is what I need/ Indie Rock and Roll it´s time.") Mesmo com toda a simplicidade da música, Glamorous Indie Rock and Roll é entoada dos confins da alma de todos os integrantes da banda, com destaque para os baixos bem marcados e pelos ótimos vocais, tornando-se uma faixa obrigatória deste CD.
Quebrando mais uma vez o ritmo agitado entra Believe Me Natalie com um arranjo simples de Vanucci na bateria, acompanhado de um efeito bem suave no sintetizador e uma guitarra quase inebriante somado a uma linda letra que é quase uma súplica de amor. Os sintetizadores e teclado se destacam em quase toda a música e Brandon Flowers prova do início ao fim que é um excelente cantor, conseguindo conduzir bem as emoções através do timbre e intensidade de sua voz. Uma excelente música para respirar e se preparar para a pancada que espera à seguir.
Se você achou que na penúltima faixa o álbum iria esfriar enganou-se totalmente, Midnight Show retoma o ritmo agitado e animado que predomina em Hot Fuss, com a guitarra num estilo que lembrou bastante o Franz Ferdinand e arranjos sensacionais na bateria a música flui pelos ouvidos passando pelo corpo todo e a vontade de dançar é quase incotrolável. Com uma construção bem definida de começo-meio-fim Midnight Show alterna ritmos suaves que vão aumentando de intensidade conforme se aproximam do refrão. A música atinge o clímax na quebra do tempo após o 2º refrão ("And crashing tide can't hide a guilty girl/With jealous hearts that start with gloss and curls/I took my baby's breath beneath the chandelier/Of stars and atmospheres/And watched her disappear/Into the midnight show.") quando as distorções e sintetizadores dão espaço a uma guitarra ritmada e os arranjos de Vanucci na bateria, que vão "explodindo" conforme a música retorna para o desfecho com um banho do fortíssimo vocal de Flowers, mantendo o ritmo frenético até o término da música, simplesmente de tirar o fôlego!
Finalmente em Everything Will Be Alright o quarteto de Las Vegas parece ter conseguido passar seu recado, viajando de sons empolgados e dançantes, para baladinhas mais calmas e até pra melancolia, terminam esta grande obra com mais uma música obscura, marcada pelos sintentizadores que se estendem por toda a música e marcam bem a mensagem que os caras parecem tentar passar, a de que todos passamos por situações e momentos difíceis em nossas vidas, mas que no fim das contas tudo irá terminar bem. Os vocais e teclados de Brandon Flowers mostram-se mais uma vez magníficos, fechando o CD em grande estilo e colocando o The Killers em destaque no cenário indie, principalmente por fugir da "mesmice" com muita originalidade e energia, um som indispensável!
Nota: 9,0
Sobe o som!!!!!
ps: ia escrever sobre o show deles no Tim Festival 2007, mas como o post ficou muito grande fica para um outro separado.
ps2: Mari, parabéns pelo seu aniversário! Você vai sempre morar em meu coração por ser esta pessoa maravilhosa! Um grande beijo!

2 comentários:
Marcelo!!!
ADOREI seu blog!!! Mandou mto... mas oq tem a ver com o direito mesmo? hahahahahahaha
Agora, falta uma descri�o de algum �lbum do Oasis, se quiser te dou uma ajuda... nada melhor que a melhor banda do Brit Pop anos 90!!!
Abs Chebu
Olá, obrigada pela visita. Também espero que vc tenha sucesso nessa nova vida, mesmo pq, Direito, ninguém merece...
Tb gostei daqui, passarei mais vezes...
Bjos
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